Pesquisa | Homens, gênero e saúde em Suape



Pesquisa com homens jovens, em Suape, produzida por Michael Machado, integrante do Gema, é matéria de Boletim da UFPE.

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Estereótipos de gênero prejudicam saúde de homens de Gaibu (PE)
Por Renata do Amaral

Antes procurada apenas para fins turísticos, a comunidade de Gaibu, no município do Cabo de Santo Agostinho (PE), agora também é local de moradia para trabalhadores da região do complexo industrial portuário de Suape. São, em sua maioria, homens jovens, que muitas vezes se afastam do convívio familiar para migrar em busca de oportunidades de trabalho e descuidam da saúde. “Os estereótipos de gênero, enraizados há séculos na cultura patriarcal brasileira, potencializam práticas baseadas em crenças de que a doença é considerada um sinal de fragilidade e que os homens não a reconhecem como inerente à sua própria condição biológica”, resume o psicólogo Michael Ferreira Machado.

As práticas de cuidado com a saúde desses indivíduos foram o tema da dissertação de mestrado “Masculinidades e cuidados em saúde na região de Suape: gênero e territorialidade””, defendida por Michael em fevereiro no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), sob a orientação do professor Benedito Medrado. O psicólogo realizou uma pesquisa qualitativa com oito homens jovens, de 18 a 29 anos, entre março e maio do ano passado. Trabalhadores do comércio local, do transporte de passageiros, do estaleiro, da construção da refinaria ou mesmo desempregados, eles serviram de base para as narrativas que exemplificam a realidade de outros moradores.

Michael partiu de uma perspectiva feminista de gênero para abordar a construção das masculinidades, tomando como base quatro eixos: narrativas do lugar (sentidos produzidos pelos moradores sobre a comunidade), dos modos de fazer-se homem (formas de vivenciar as masculinidades), de saúde (práticas cotidianas de cuidado com a saúde) e do cuidar (outras práticas referentes ao cuidado de si e dos outros). O autor também lançou mão do construcionismo social, teoria que busca compreender de que forma aspectos simbólicos e históricos interferem na realidade. O psicólogo realizou oficinas com o grupo para elaborar seus ““diários de bordo”, que somam a experiência etnográfica do pesquisador no campo ao relato dos fatos.

“Os empreendimentos do complexo Suape geram impactos, nem sempre positivos, na própria dinâmica de desigualdade existente, em especial com a chegada de milhares de homens atraídos pela promessa de emprego e melhoria de vida ocorrendo uma ‘sobrecarga’ nas precárias redes de atenção à saúde”, explica Michael. O Mapa da Violência do Ministério da Justiça revela um aumento no índice de violência na região, em especial de homicídios. “Relatos presentes ‘na ‘narrativa dos modos de fazer-se homem’ apresentam como a defesa da honra e da moral são elementos que motivam alguns episódios de violência. Homem que é homem precisa ser honrado”, afirma o autor a partir das conversas com os entrevistados.

As práticas de saúde da população em questão se baseiam principalmente no saber materno, na tradição, na igreja e nos programas de televisão. Os entrevistados só recorrem a serviços de saúde em casos de urgência, recorrendo pouco à prevenção,  e quando vão não são atendidos. Apesar de o índice de alcoolismo ser alto no local, ele consideram que álcool e substâncias psicoativas em geral fazem mal à saúde. ““As narrativas aqui apresentadas fortalecem nosso argumento de que não podemos falar de uma atenção integral a saúde da população masculina sem levar em consideração o território em que as pessoas vivem, sem levar em consideração os seus modos de vida e seus processos de socialização”, defende.

CONTEXTO A pesquisa foi realizada como parte do projeto de intervenção da UFPE “Diálogos para o desenvolvimento social de Suape”, realizado com apoio das organizações não governamentais Centro das Mulheres do Cabo e Instituto Papai. A ação visa a assegurar direitos humanos para a população da região, prevenir problemas de saúde e diminuir os índices de violência. São explorados temas como gravidez na adolescência, doenças sexualmente transmissíveis, enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes, violência contra as mulheres e uso abusivo de álcool. Iniciado em maio de 2012 e com previsão de duração de dois anos, o projeto busca mobilizar as esferas pública, privada e comunitária.

Mais informações
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
(81) 2126.8271    
psiufpe@uol.com.br
Michael Ferreira Machado 
michael.mmachado@gmail.com